sexta-feira, 24 de setembro de 2010

E se voássemos o que seria a vida, sem um vazio por atingir?

Ouvi hoje, antes de acordar totalmente, um cantar de pássaro estranho em minha janela. Nem faço idéia da espécie, mas incomodava meus e outros ouvidos humanos, desacostumados ao estranho, como sempre. Daí, há segundos, me ocorreu essa idéia de como seria a vida se voássemos todos? O céu, essa imensidão de possibilidades, um vazio convidativo à reflexão, ocupado pelos mais diversos e controversos gostos. O caos aéreo, provocado por um turbilhão de corpos, perdidos, arrogantes, egoístas ou amantes da vida. E a terra, nesse caso, o que se tornaria? Um lugar para passeios ocasionais, como é o mar? Nosso gigante vaso sanitário, totalmente livre de regras? E as outras espécies vivas do ar, sobreviveriam ao compartilhamento de seu espaço com esses seres tão certos de si? E até onde iríamos com essas nossas asas, tortas de direção ante a dimensão da vida, curtas de  visão ante a imensidão do universo. Criaríamos, provavelmente, novos problemas e limitações. Atrofiaríamos, certamente, nosso olhar de território. E o alvo, e a meta, estariam mesmo abaixo. Aprender a andar poderia ser o novo eterno projeto humano. E um ser qualquer criaria as pernas mecânicas. E falharia. Então, um dia qualquer, quando o céu já estivesse o nosso inferno de tédio, infestado de corpos perturbados com as asas alheias, um desses seres humanos voadores miraria seu olhar no horizonte do solo, observaria um pássaro estranho em um galho de uma arvorezinha e pensaria: "Lá nascem coisas interessantes, e eu também quero cantar diante disso” – mas, nisso, se apresentaria o desafio – “Tenho que aprender a andar aqui no céu".
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L. Boff, cosmonicando sobre A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma

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