Uma experiência que vivi anos atrás foi inspiradora para a crônica abaixo.
Apenas diferente
Era uma explicação que Samanta costumava comumente ouvir da boca dos adultos a seu respeito. Tinha já quatro anos, mas não compreendia porque motivo não podia fazer as mesmas coisas que as outras crianças. A vontade era tanta, mas os pequenos músculos atrofiados de uma paralisia infantil, não permitiam. E a explicação para quem perguntava em suas saídas com a mãe, vinha sempre em um tom baixinho: ‘Ela é diferente’. Algumas vezes, havia outras expressões eufemísticas, como: ‘Ela tem alguns probleminhas’, ou ‘É assim desde pequena’, ou ainda, ‘Nada que lhe impeça de ter uma convivência sadia’. Para a pequena Samanta, entretanto, isso parecia não ter a mínima importância. Suas energias, nessas saídas para além das quatro paredes de sua casa, eram concentradas apenas em uma vontade: descobrir o mundo e brincar. Samanta não falava nenhuma palavra, apenas emitia sons confusos ao ouvido comum, mas entendíveis e com claro significado para a sua mãe que, ajudada pelos gestos, sabia de pronto o que a filha queria. Era uma comunicação estranha. Mas a impossibilidade de falar, correr e pular daquela pequena bonequinha, que a todos encantava, era compensado por um olhar carregado de carinho, que tornava quase obrigatória uma resposta em algum nível, mesmo por parte das outras crianças. E assim foi com aquele garotinho na Rodoviária de Curitiba, que andava para um lado e para o outro, enquanto Samanta esperneava no colo da mãe. De repente, o menininho voltou-se para a inquietude da garotinha. Hipnotizado pelos olhares penetrantes da menina, o agitado fulaninho tomou a iniciativa e foi até a mãe de Samanta., enquanto a sua vigiava-lhe de perto. Puxou a mão da mulher ininterruptamente, até que essa atendesse ao seu apelo e pusesse a menina no chão. Assim que tocou os pesinhos no cimento frio, sem apoio, Samanta encostou-se nos joelhos e sentou-se, começando a acompanhar os passos do menino apenas arrastando-se, como sempre fazia com os seus amiguinhos. Este, não satisfeito, e parecendo um terapeuta empenhado em fazer a sua nova amiguinha caminhar, pegou-lhe pela mão, insistindo-lhe para que Samanta se levantasse. Atenta aos movimentos a mãe da menina precipitou-se e, cuidadosamente, levantou-lhe, pegando a sua outra mão. Assim, com uma mão estendida à sua mãe e a outra àquele garotinho, que não deveria ter mais de três anos, Samanta deu muitos passinhos entre os presentes, que aguardavam o horário de suas viagens. Não tenho idéia de quanto essa aventura durou. O tempo, há quem diga, é mesmo uma ilusão. O fato é que os breves minutos, ao longo de poucos metros, que durou aquele passeio, representaram uma eternidade através dos olhos brilhantes de Samanta. Uma genuína e depreendida compreensão que poucos, além das crianças, podem transmitir em função de sua pureza de intenções. Quem testemunhou, colheu os seus frutos. Samanta e o seu amiguinho, doses de carinho. A todos ao seu redor, instantes de aprendizado sobre a dimensão que pode fazer da diferença, muito além de algo contrário ao normal, uma qualidade superior ao banal.
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