Eric Nepomuceno, de
Buenos Aires.
Reproduzido de Carta Maior
Nossos países, uns
mais, outros ainda nem tanto, comprovam que não há verdade que
alguém possa esconder para sempre. Que não há silêncio absoluto
para a memória: alguma hora, alguma vez, ela se fará ouvir, fará
soar o que quiseram calar.
É um processo que toca
fundo muitas fibras tensas – inclusive as da dor, da humilhação,
do esquecimento. E são essas as cicatrizes que poderão impedir
novas feridas, novas sangrias. Querer calar o que aconteceu,
pretender negar a memória e adormecer a justiça, é anular o
presente. Represar essas águas é inútil: elas saberão retomar seu
fluxo. Também delas é feito o presente, e são elas que conduzirão
ao futuro.
No dia 11 de junho de
2012, uns meninos que brincavam num terreno do subúrbio de San
Fernando, vizinho a Buenos Aires, acharam três estranhos tonéis.
Estavam cheios de cimento. Um dos tonéis havia tombado, e no tombo,
o cimento havia se quebrado. Os meninos viram ossos misturados ao
cimento. Ossos humanos. A polícia logo descobriu que nos outros dois
tonéis também havia cimento e ossadas humanas. Depois das análises
dos médicos legistas, confirmou-se que uma das ossadas pertencia a
um cubano sequestrado e morto 36 anos antes, durante a ditadura
encabeçada pelo general Jorge Rafael Videla. Desde aquele tempo, seu
paradeiro era mistério absoluto.
No dia nove de agosto
de 1976 Crescencio Nicomedes Galañena Hernández e Jesús Cejas
Arias saíram da embaixada cubana em Buenos Aires, no bairro de
Belgrano, onde trabalhavam na parte administrativa. Oito dias depois,
a agência norte-americana de notícias Associated Press recebeu um
envelope, despachado pelo correio em Buenos Aires mesmo, com as
credenciais dos dois e um bilhete que dizia o seguinte: “Nós,
Jesús Cejas Arias e Crescencio Galañena, ambos cubanos, nos
dirigimos aos senhores para através desta comunicar que desertamos
da embaixada para usufruir da liberdade do mundo ocidental”. A nota
não estava assinada. O ministério argentino de Relações
Exteriores confirmou a autenticidade das credenciais. E a ditadura
que sufocava o país não precisou explicar o sumiço dos cubanos:
haviam desertado e ponto final.
Ao longo do tempo e dos
processos judiciais que buscam restabelecer a verdade, resgatar a
memória e aplicar a justiça na Argentina, comprovou-se que eles
haviam sido sequestrados e levados para a Automotores Orletti, um dos
campos de concentração clandestinos da ditadura. Documentos
norte-americanos indicaram que o agente da CIA Michael Towley e o
cubano Guillermo Novo viajaram dos Estados Unidos até Buenos Aires
para interrogar os dois.
A maior parte dessa
história já havia sido reconstruída, e os responsáveis pelas
barbaridades cometidas na Automotores Orletti foram julgados e
condenados. O uso de tonéis de combustível recheados de cimento
para esconder ossadas humanas era conhecido. Aliás, foi assim, num
tonel, que Juan Gelman, o maior poeta vivo da América Hispânica,
encontrou em 1989 o que restou de seu filho Marcelo. Agora, com os
três tonéis achados pelos meninos que brincavam num terreno baldio
de um subúrbio de Buenos Aires ficou claro que pode haver muitos
outros espalhados ao deus-dará. A polícia investiga para saber se
esses três tonéis sempre estiveram no mesmo baldio, ou se foram
levados para lá em tempos mais recentes.
Ao longo dos últimos
nove anos, e da mesma forma que havia acontecido entre 1985 e 1989,
não há uma semana sem que os argentinos tropecem com novas
histórias de seus tempos mais tenebrosos. Não há uma semana sem
que algum sobrevivente conte seu calvário, reconheça alguns de seus
algozes, sacuda o passado. Os torturadores e assassinos, os ladrões
de bebês e os violadores de mulheres estão sendo julgados, ou seja,
estão tendo um direito elementar que negaram às suas vítimas: o
direito de defesa. E a memória volta ao seu rumo, a verdade sai do
silêncio infame ao qual quiseram que fosse condenada, e a justiça
se impõe.
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