Por Sebastião Pinheiro*
A primeira comemoração feita pelos atletas alemães perante sua torcida pela conquista da Copa Mundial FIFA no gramado do Maracanã foi a dança com a taça (foto).

Maracanã é o nome dado ao rio (já canalizado) que cortava aquela várzea e seguramente havia grande quantidade do periquito que leva esse nome (foto),também conhecido por maritaca.

Imediatamente lembrei de outra pajelança**, a do colega, professor e grande cientista Augusto Ruschi. Conheci esse pesquisador e seu filho André em Santa Tereza, no Espírito Santo. Ruschi e Kausky eram cientistas e líderes orgânicos do povo brasileiro.
Kausky, com suas orquídeas quase microscópicas, e Ruschi com orquídeas, colibris, beija-flor e Mata Atlântica. Quando Ruschi estava muito mal, o cacique Raoni e o pajé Sapaim fizeram a pajelança para desintoxicá-lo do envenenamento pelo sapinho dendrobata, que havia tocado no interior da Floresta Amazônica. A mídia repercutiu que ele se sentia curado, apareceu na televisão, jornais, rádios sentando e levantando seguidas vezes para mostrar o resultado do tratamento indígena.
Contudo, pouco tempo depois começou a piorar, agora em função da hepatite C, fruto dos seguidos tratamentos contra as recidivas de malária.
Já muito doente, uma rede hegemônica de comunicações ofereceu-lhe o custeio do tratamento na Clinica Mayo, em Nova Iorque.
Vendo aquela cobiçada taça de cinco quilos de ouro e os jovens atletas teutônicos fazendo a dança indo e vindo à taça, me fez lembrar minha estupefação quando o cientista negou-se a aceitar o convite da Rede de Comunicações e disse aos amigos: Eu não vou trocar uns dias mais de vida, pela desmoralização dos indígenas, que é o que estou percebendo.
Era uma época braba. O governo do Espírito Santo, com respaldo federal, oferecia ilegalmente terras indígenas, quilombolas e de populações tradicionais à Aracruz Celulose (Casa de Windsor, Coroa Britânica) para o plantio de eucalipto. A luta de Ruschi era encarniçada contra a destruição da Mata Atlântica, orquídeas, beija-flores, água e muito mais indígenas, que para um bom número de brasileiros vale muito menos que uma estrela bordada na camisa da seleção de futebol, enquanto que para outros, vale centenas de vezes o peso daquela taça de ouro.
Os alemães agradeceram a força mística da pajelança na cerimônia de despedida dos indígenas pataxós e novamente veio à memória o que aconteceu na véspera da instalação da Conferencia das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, a Rio-92. A mesma cadeia de televisão mostrou com grande alarde e sensacionalismo que o cacique Paulinho Paiakan, da tribo dos Caiapós, e sua esposa haviam estuprado uma jovem branca...
Os movimentos sociais de todo o mundo presente à conferencia sentiram o golpe. As articulações de entidades por essa artimanha ficaram fragilizadas no evento. Entretanto, em 1994 os indígenas foram absolvidos. Interessante que, em 1999, eles voltaram a ser julgados pelo mesmo crime, e então condenados a seis anos de prisão.
A seleção alemã de futebol, como estratégia e logística, construiu sua sede próximo ao lugar onde o Brasil recebeu os primeiros europeus, no “descobrimento” e ali desde o Século XVIII na colonização portuguesa havia um escudo para proteger e impedir a mineração de ouro, por tal as terras eram públicas e muito preservadas e mantiveram algumas etnias.
O Serviço de Proteção ao Índio, criado em 1910, possuía ali uma reserva de 50 mil hectares. Mas, começou a ceder a terra indígena para o desmatamento e assentamentos de criadores de gado, e com o inicio do cultivo do Cacau no Sul da Bahia, havia uma grande pressão dos coronéis, barões e transnacionais do Cacau para a expansão das plantações. O cacau só cresce sob o manto e sombra da floresta.
Para mais rápida expulsão e degradação indígena se aproveitaram da Intentona Comunista e fizeram acusações que os indígenas estavam se organizando células comunistas e assim o SPI reduziu a Reserva de 50 mil hectares doando 15 mil hectares, distribuídos entre os coronéis e barões do cacau em 1936.
Progressivamente, diferentes etnias indígenas do Estado da Bahia foram transportadas para a reserva que minguava e misturava etnias (Pataxó Hãhãhãe, Baenã, Tupinambá, Kariri Sapuyá e Pataxó). Em 1950, da área, restava apenas 3 mil hectare. O resto estava todo arrendado a comerciantes afilhados de políticos locais.
O chefe do Posto Indígena, para pagar as dívidas aos arrendatários - os comerciantes que forneciam alimentos aos indígenas confinados - vendia o gado criado pelos indígenas gerando insatisfação e debandada.
Em abril de 1964, intensificou-se a cobiça por terras públicas e indígenas para a agricultura moderna, um compromisso com as multinacionais de insumos e capital financeiro.
Somente em 1982 com o SPI, desde 1967 transformado em FUNAI, é que as gerações remanescentes começaram a organizar-se na busca de re-significar sua identidade e começaram a prestar depoimentos sobre o seu “holocausto” e genocídio cultural, pois foram durante décadas proibidas de falar em seu próprio idioma e praticar sua cultura. Os que resistiam eram torturados violentamente ou consumidos delicadamente.
Seguindo os preceitos de Paulo Freire, nos anos 90, o então Pró-Reitor de Extensão da UFRGS, que era agrônomo e meu chefe, comemorava eufórico que uma jovem indígena havia se graduado advogada, e pretendia trazê-la para uma palestra. Este ficou desconcertado quando eu lhe questionei: Onde no Brasil havia uma faculdade indígena com curso de direito? Depois ficou enraivecido e colérico.

É que, como cidadão e ativista, acompanhei o crime cometido contra o pataxó Hãhahãe Galdino Jesus dos Santos (foto).
********************
Em 1997, Galdino foi vítima de uma crueldade que comoveu o País. Por ocasião de sua participação na celebração ao Dia do Índio e de uma audiência com o presidente da República pela recuperação das Terras no Sul da Bahia, realizadas em Brasília, em abril daquele ano. Após as comemorações, Galdino perdeu-se na cidade, e chegou tarde à pensão onde estava alojado. Para não incomodar, foi dormir em uma parada de ônibus. Durante a noite, ele foi encharcado com álcool e queimado vivo por um grupo de cinco jovens da alta sociedade branca de Brasília, que alegaram que não sabiam que era um índio, pensavam que era um mendigo e estavam brincando e queriam dar um susto. Julgados, foram condenados, mas sequer cumpriram a pena e pouco tempo depois estavam livres... Talvez até tenham assistido aos jogos da Copa.
******************************
Ruschi foi um grande defensor dos direitos indígenas. Uma das coisas importantes que aprendi com ele foi o índio é o guardião das matas, e onde não há mais mata, há a necessidade de compatibilizar a reforma agrária, a agricultura e a preservação ambiental como exercícios de cidadania.
Foi com ele que entendi finalmente o significado do quadro Abaporu (Tarsila do Amaral) e o lema “Tupi or no Tupi” da Semana de Arte Moderna (1922).
Eu torci pela Argentina, mas fiquei contente com os alemães, pois a televisão teve de mostrar: Finalmente os companheiros de Galdino foram reconhecidos na dança de agradecimento dos teutônicos, em pleno gramado que todos deveríamos saber decifrar. Sem esnobismo, mas alemães não improvisam jamais. Adoram cifrar as coisas.
______________________
*Engenheiro agrônomo e florestal, escritor e ambientalista
** É provável que a palavra Pajé venha da raiz pa-y = profeta, adivinho, curador, sacerdote, xamã. O termo pajelança é aplicado nas manifestações xamânicas dos índios brasileiros. Pode ser divido em pajelança indígena (rituais indígenas) e pajelança cabocla, que são praticas religiosas (não índígenas) mais comuns no Noorte e Nordeste brasileiro (Fonte: site Xamanismo).
A primeira comemoração feita pelos atletas alemães perante sua torcida pela conquista da Copa Mundial FIFA no gramado do Maracanã foi a dança com a taça (foto).
Maracanã é o nome dado ao rio (já canalizado) que cortava aquela várzea e seguramente havia grande quantidade do periquito que leva esse nome (foto),também conhecido por maritaca.
Imediatamente lembrei de outra pajelança**, a do colega, professor e grande cientista Augusto Ruschi. Conheci esse pesquisador e seu filho André em Santa Tereza, no Espírito Santo. Ruschi e Kausky eram cientistas e líderes orgânicos do povo brasileiro.
Kausky, com suas orquídeas quase microscópicas, e Ruschi com orquídeas, colibris, beija-flor e Mata Atlântica. Quando Ruschi estava muito mal, o cacique Raoni e o pajé Sapaim fizeram a pajelança para desintoxicá-lo do envenenamento pelo sapinho dendrobata, que havia tocado no interior da Floresta Amazônica. A mídia repercutiu que ele se sentia curado, apareceu na televisão, jornais, rádios sentando e levantando seguidas vezes para mostrar o resultado do tratamento indígena.
Contudo, pouco tempo depois começou a piorar, agora em função da hepatite C, fruto dos seguidos tratamentos contra as recidivas de malária.
Já muito doente, uma rede hegemônica de comunicações ofereceu-lhe o custeio do tratamento na Clinica Mayo, em Nova Iorque.
Vendo aquela cobiçada taça de cinco quilos de ouro e os jovens atletas teutônicos fazendo a dança indo e vindo à taça, me fez lembrar minha estupefação quando o cientista negou-se a aceitar o convite da Rede de Comunicações e disse aos amigos: Eu não vou trocar uns dias mais de vida, pela desmoralização dos indígenas, que é o que estou percebendo.
Era uma época braba. O governo do Espírito Santo, com respaldo federal, oferecia ilegalmente terras indígenas, quilombolas e de populações tradicionais à Aracruz Celulose (Casa de Windsor, Coroa Britânica) para o plantio de eucalipto. A luta de Ruschi era encarniçada contra a destruição da Mata Atlântica, orquídeas, beija-flores, água e muito mais indígenas, que para um bom número de brasileiros vale muito menos que uma estrela bordada na camisa da seleção de futebol, enquanto que para outros, vale centenas de vezes o peso daquela taça de ouro.
Os alemães agradeceram a força mística da pajelança na cerimônia de despedida dos indígenas pataxós e novamente veio à memória o que aconteceu na véspera da instalação da Conferencia das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, a Rio-92. A mesma cadeia de televisão mostrou com grande alarde e sensacionalismo que o cacique Paulinho Paiakan, da tribo dos Caiapós, e sua esposa haviam estuprado uma jovem branca...
Os movimentos sociais de todo o mundo presente à conferencia sentiram o golpe. As articulações de entidades por essa artimanha ficaram fragilizadas no evento. Entretanto, em 1994 os indígenas foram absolvidos. Interessante que, em 1999, eles voltaram a ser julgados pelo mesmo crime, e então condenados a seis anos de prisão.
A seleção alemã de futebol, como estratégia e logística, construiu sua sede próximo ao lugar onde o Brasil recebeu os primeiros europeus, no “descobrimento” e ali desde o Século XVIII na colonização portuguesa havia um escudo para proteger e impedir a mineração de ouro, por tal as terras eram públicas e muito preservadas e mantiveram algumas etnias.
O Serviço de Proteção ao Índio, criado em 1910, possuía ali uma reserva de 50 mil hectares. Mas, começou a ceder a terra indígena para o desmatamento e assentamentos de criadores de gado, e com o inicio do cultivo do Cacau no Sul da Bahia, havia uma grande pressão dos coronéis, barões e transnacionais do Cacau para a expansão das plantações. O cacau só cresce sob o manto e sombra da floresta.
Para mais rápida expulsão e degradação indígena se aproveitaram da Intentona Comunista e fizeram acusações que os indígenas estavam se organizando células comunistas e assim o SPI reduziu a Reserva de 50 mil hectares doando 15 mil hectares, distribuídos entre os coronéis e barões do cacau em 1936.
Progressivamente, diferentes etnias indígenas do Estado da Bahia foram transportadas para a reserva que minguava e misturava etnias (Pataxó Hãhãhãe, Baenã, Tupinambá, Kariri Sapuyá e Pataxó). Em 1950, da área, restava apenas 3 mil hectare. O resto estava todo arrendado a comerciantes afilhados de políticos locais.
O chefe do Posto Indígena, para pagar as dívidas aos arrendatários - os comerciantes que forneciam alimentos aos indígenas confinados - vendia o gado criado pelos indígenas gerando insatisfação e debandada.
Em abril de 1964, intensificou-se a cobiça por terras públicas e indígenas para a agricultura moderna, um compromisso com as multinacionais de insumos e capital financeiro.
Somente em 1982 com o SPI, desde 1967 transformado em FUNAI, é que as gerações remanescentes começaram a organizar-se na busca de re-significar sua identidade e começaram a prestar depoimentos sobre o seu “holocausto” e genocídio cultural, pois foram durante décadas proibidas de falar em seu próprio idioma e praticar sua cultura. Os que resistiam eram torturados violentamente ou consumidos delicadamente.
Seguindo os preceitos de Paulo Freire, nos anos 90, o então Pró-Reitor de Extensão da UFRGS, que era agrônomo e meu chefe, comemorava eufórico que uma jovem indígena havia se graduado advogada, e pretendia trazê-la para uma palestra. Este ficou desconcertado quando eu lhe questionei: Onde no Brasil havia uma faculdade indígena com curso de direito? Depois ficou enraivecido e colérico.
Eu não o peitava por ideologia.
É que, como cidadão e ativista, acompanhei o crime cometido contra o pataxó Hãhahãe Galdino Jesus dos Santos (foto).
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Em 1997, Galdino foi vítima de uma crueldade que comoveu o País. Por ocasião de sua participação na celebração ao Dia do Índio e de uma audiência com o presidente da República pela recuperação das Terras no Sul da Bahia, realizadas em Brasília, em abril daquele ano. Após as comemorações, Galdino perdeu-se na cidade, e chegou tarde à pensão onde estava alojado. Para não incomodar, foi dormir em uma parada de ônibus. Durante a noite, ele foi encharcado com álcool e queimado vivo por um grupo de cinco jovens da alta sociedade branca de Brasília, que alegaram que não sabiam que era um índio, pensavam que era um mendigo e estavam brincando e queriam dar um susto. Julgados, foram condenados, mas sequer cumpriram a pena e pouco tempo depois estavam livres... Talvez até tenham assistido aos jogos da Copa.
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Ruschi foi um grande defensor dos direitos indígenas. Uma das coisas importantes que aprendi com ele foi o índio é o guardião das matas, e onde não há mais mata, há a necessidade de compatibilizar a reforma agrária, a agricultura e a preservação ambiental como exercícios de cidadania.
Foi com ele que entendi finalmente o significado do quadro Abaporu (Tarsila do Amaral) e o lema “Tupi or no Tupi” da Semana de Arte Moderna (1922).
Eu torci pela Argentina, mas fiquei contente com os alemães, pois a televisão teve de mostrar: Finalmente os companheiros de Galdino foram reconhecidos na dança de agradecimento dos teutônicos, em pleno gramado que todos deveríamos saber decifrar. Sem esnobismo, mas alemães não improvisam jamais. Adoram cifrar as coisas.
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*Engenheiro agrônomo e florestal, escritor e ambientalista
** É provável que a palavra Pajé venha da raiz pa-y = profeta, adivinho, curador, sacerdote, xamã. O termo pajelança é aplicado nas manifestações xamânicas dos índios brasileiros. Pode ser divido em pajelança indígena (rituais indígenas) e pajelança cabocla, que são praticas religiosas (não índígenas) mais comuns no Noorte e Nordeste brasileiro (Fonte: site Xamanismo).
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