04 JULHO 2014.
JoomShareBar
Por Dr. phil. Sônia T. Felipe
Reproduzido do Olhar Animal
Patê de foie gras ético? Estou até agora pensando qual seria
o princípio ético capaz de justificar que os humanos forcem animais de outras
espécies a nascerem, a comerem alimentos não apropriados à saúde de seu fígado,
para depois os matarem “eticamente”, usando recursos tecnológicos dos quais
nenhum animal de outra espécie pode escapar, se é que algum da nossa espécie o
conseguiria. Pelo feito aos judeus sob o regime nazista, parece que a
possibilidade de chegar à liberdade saindo de uma câmara de gás é realmente
ínfima. Imagine essa possibilidade para os patos e gansos criados no regime de
engorda e degeneração do fígado para a produção do patê. Eles matam o animal
depois de gerar em seu fígado a esteatose, inevitável em consequência da
alimentação que os obrigam a ingerir.
E chamam isso de patê de foie gras ético? Se isso for ético,
então o nazismo também o pode ser, pois também mataram judeus com gás, em vez
de seguir executando-os a tiros, à beira de uma vala cavada previamente por
eles.
É nisso que dá, defender tratamento bem-estarista para os
animais, e ao mesmo tempo fingir que assassiná-los não tem nenhuma implicação
ética. Só uma moral esquizofrênica pode lidar com tais práticas com
naturalidade. E só uma moral esquizofrênica pode separar as duas questões, a da
vida e a da morte, como se uma não tivesse qualquer ligação com a outra. Só uma
moral esquizofrênica pode admitir que comer um animal morto a gás é moralmente
justificável, enquanto comer um animal morto a tiro, ou degolado, não o é.
Da perspectiva do animal que foi morto a gás, a vida dele
importava tanto para ele, quanto importa a vida para o animal morto a tiros, ou
por degola. Da perspectiva do animal morto a tiro dentro de um abatedouro, a
vida dele importa tanto para ele, quanto importa a vida, para um animal morto a
tiro numa floresta.
Defensores do “bem-estar animal” se animam quando Brigitte
Bardot faz campanha contra o extermínio de animais abandonados na rua em país
do leste europeu. Revoltam-se quando alguém os lembra que essa senhora não faz
campanha para abolir a produção de foie gras em seu próprio país. Nas mesmas
páginas da ANDA onde comentários são publicados sobre a técnica de abate de
cães em restaurantes na China, para consumo de carne fresca por parte dos
comedores humanos, há xingamentos a todo o povo chinês, gente pedindo que sejam
mortos como matam aqueles cães, gente pedindo que um vírus ataque toda a
população da China e a dizime. Mas, esses mesmo internautas apegados a cães e
gatos, nunca se pronunciaram sobre o fato de que porcos são colocados ainda
vivos nas caldeiras com água fervente, e têm essa experiência, a da água
fervendo em seus pulmões, como último gesto humano contra sua vida. Mas, daí a
concluir que, então, se o animal for morto sem dor, o ato de matá-lo torna-se
“ético”, é um salto acrobático que nenhuma ética genuína está preparada
fisicamente para fazer.
Assim, em cada país parece que as pessoas estão muito à
vontade quando abraçam a sua espécie predileta de bicho, e muito nervosas ficam
quando um bicho da espécie que escolheram estimar é tratado de modo cruel em
outro país. Esse especismo eletivo assola as mentes humanas ao redor do
planeta, menos a mente dos veganos, que não discriminam nenhum animal por conta
de sua espécie.
Para que o fígado de um ganso ou pato deforme de tal modo
que se torne dilatado e mole, podendo ser transformado numa pasta macia para
passar no pão e na torrada de humanos que já estão muito bem alimentados e não
têm carência alguma de proteínas, nem de origem animal, nem de origem vegetal,
o animal é submetido a uma dieta absolutamente fora do padrão específico que
configura a dieta de sua espécie. Quando o sustento desse animal começa a pesar
no bolso do produtor, ele “acelera” o processo de degeneração do fígado dos
bichos, introduzindo quantidades imensas de comida por um tubo enfiado pela
boca até o estômago do animal. Por natureza, o animal não comeria mais do que o
suficiente para sentir-se satisfeito. Por ser fonte de lucro para os humanos,
ele é forçado a comer o que não suportaria, se estivesse livre. No esforço de
digerir esse alimento, o fígado vai deformando, inchando. Assim alcança o ponto
desejado pelo “produtor”. O ponto desejado pelo comedor que compra o foie gras.
O ponto não desejado pelo ganso ou pato cujo fígado incha. A ética, nesse
momento, em que o fígado do animal foi deformado pelo manejo que visa vendê-lo,
não é chamada a julgar.
Chamam de “orgânica” a nova técnica de fazer inchar o fígado
dos animais. Eles têm seu organismo igualmente deformado pela dieta oferecida,
rica em gordura vegetal e grãos. Eles têm sua vida igualmente ceifada. Eles
foram forçados a nascer apenas porque têm um fígado sensível a alimentos
inadequados. Eles acabarão do mesmo modo, mortos. Seus fígados inchados e
deformados acabarão do mesmo modo triturados até formarem uma pasta (patê).
Essa pasta será igualmente passada sobre torradas e pães. A vida dos gansos e
patos, criados no sistema de confinamento tradicional pela indústria do patê de
foie gras, e dos criados no “sistema orgânico”, têm para os humanos que os
criam, para os que os matam, para os que compram o tal do patê, o mesmo valor:
nenhum. Destituir a vida de um animal de qualquer valor, e depois classificar
de ético o sistema de tirar a vida do animal de forma que ele não perceba os
gestos que o abatem, e chamar a essas invenções de “orgânicas” e “éticas”, é
chegar bem próximo do limite da decência humana.
Há quem mereça comer esse tipo de alimento. Mas, os animais
não merecem ser transformados em delicatessem para atender a apetites dessa
pequenez moral. Nenhum animal merece isso, não importa o tipo de iguaria
cobiçada pelos humanos.
Na Alemanha, a produção do patê de foie gras foi abolida.
Mas, a comercialização do patê de foie gras produzido na França, ainda não.
Somado todo patê produzido no mundo, a França responde por dois terços dessa
produção. Brigitte Bardot já afirmou que os árabes deterioram a finíssima
cultura francesa com sua presença e valores. Mas, que eu saiba, não foram os
muçulmanos quem inventaram enfiar comida garganta abaixo de um animal, para
depois matá-lo e retirar seu fígado dilatado para fazer patê.
Aliás, pelos princípios religiosos muçulmanos, nenhum animal
pode ser “desfigurado”. Nenhuma parte do corpo de um animal pode ser manipulada
de modo a que perca o design de sua natureza específica. Quem são os bárbaros
na “civilização” contemporânea?
Fonte: ANDA
perfil soniaSônia T. Felipe | felipe@cfh.ufsc.br
Sônia T. Felipe, doutora em Teoria Política e Filosofia
Moral pela Universidade de Konstanz, Alemanha (1991), fundadora do Núcleo de
Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993); voluntária do Centro
de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1998-2001); pós-doutorado em
Bioética - Ética Animal - Univ. de Lisboa (2001-2002). Autora dos livros, Por
uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa
dos animais (Boiteux, 2003); Ética e experimentação animal: fundamentos
abolicionistas (Edufsc, 2006); Galactolatria: mau deleite (Ecoânima, 2012);
Passaporte para o Mundo dos Leites Veganos (Ecoânima, 2012); Colaboradora nas
coletâneas, Direito à reprodução e à sexualidade: uma questão de ética e
justiça (Lumen & Juris, 2010); Visão abolicionista: Ética e Direitos
Animais (ANDA, 2010); A dignidade da vida e os direitos fundamentais para além
dos humanos (Fórum, 2008); Instrumento animal (Canal 6, 2008); O utilitarismo
em foco (Edufsc, 2008); Éticas e políticas ambientais (Lisboa, 2004);
Tendências da ética contemporânea (Vozes, 2000).
Cofundadora da Sociedade Vegana (no Brasil); colunista da
ANDA (Questão de Ética) www.anda.jor.br; publica no Olhar Animal
(www.pensataanimal.net); Editou os volumes temáticos da Revista ETHIC@,www.cfh.ufsc.br/ethic@
(Special Issues) dedicados à ética animal, à ética ambiental, às éticas
biocêntricas e à comunidade moral. Coordena o projeto: Ecoanimalismo feminista,
contribuições para a superação da discriminação e violência (UFSC, 2008-2014).
Foi professora, pesquisadora e orientadora do Programa Interdisciplinar de
Doutorado em Ciências Humanas e do Curso de Pós-graduação em Filosofia (UFSC,
1979-2008). É terapeuta Ayurvédica, direcionando seus estudos para a dieta
vegana.
Link para C. Lattes:
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4781199P4

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