domingo, 9 de junho de 2013

A pedagogia de uma crise

Conforme vamos descobrindo a dimensão sem fronteiras das crueldades e injustiças humanas, vai se desmanchando a ideia tão fabricada de que os povos do chamado Terceiro Mundo tenham algum nível de inferioridade cultural.
Seria surpreendente, mas historicamente educativo, se as chamadas sociedades desenvolvidas, que escravizaram e exploraram os chamados povos primitivos, mas que se encontram hoje em vertiginosa decadência, viessem a absorver os modos de vida e as referências de relação com a natureza daquelas tribos que outrora subjugaram. Seria o fenômeno abaixo assinalado um indício disso? No creo; mas há é provável que hoje esteja se extraindo por lá uma lição muito difundida desde aqueles pagos - "Cría cuervos y te sacarán los ojos".

Perante o 'boom' imobiliário e a especulação que se apoderou do metro quadrado espanhol durante as últimas décadas, Marinaleda decidiu seguir exatamente pela direção contrária. Ali, é possível ter uma casa em boas condições, com 90 metros quadrados e terraço, por 15 euros por mês. A única condição é que, seguindo a filosofia comunitária e horizontal que guia todas as atividades desta terra, cada pessoa ajude na construção da sua própria casa.


90 metros quadrados por 15 euros por mês

Numa entrevista ao diário madrileno Público, no mês passado, o próprio Gordillo explicava como a crise está a afetar Marinaleda. “Em termos gerais, na agricultura e na alimentação não se nota muito a crise. O que acontece é que as pessoas que tinham deixado o campo para trabalharem na construção civil está a voltar e procura emprego. Por isso, não só é necessário manter o emprego que existe como também aumentar a oferta. A agricultura ecológica dá mais emprego do que a tradicional”.

Texto e Foto reproduzidos de Presseurop.eu.


Marinaleda. Juan Manuel Sánchez Gordillo, o aicaide da aldeia, à frente de um grafiti que faz apelo à reforma agrária.

Perante o 'boom' imobiliário e a especulação que se apoderou do metro quadrado espanhol durante as últimas décadas, Marinaleda decidiu seguir exatamente pela direção contrária. Ali, é possível ter uma casa em boas condições, com 90 metros quadrados e terraço, por 15 euros por mês. A única condição é que, seguindo a filosofia comunitária e horizontal que guia todas as atividades desta terra, cada pessoa ajude na construção da sua própria casa. Com um solo conseguido alternando compra e expropriação, a autarquia oferece o terreno e fornece os materiais necessários para a construção da casa, que é construída pelos próprios inquilinos ou então estes pagam a quem os substitua. Do mesmo modo, paga a pedreiros profissionais para que ajudem os habitantes e façam os trabalhos mais complicados. E ainda, como medida para fomentar a colaboração, os futuros habitantes não sabem qual das casas que estão a ser construídas será, no futuro, a sua.

“Quando estás a trabalhar na construção da casa pagam-te 800 euros por mês e metade desse ordenado guarda-se para ir pagando a casa”, conta Juan José Sancho, um dos habitantes de Marinaleda que, apesar dos seus 21 anos, faz parte do 'grupo de ação' da autarquia que se encarrega, através da assembleia, de gerir os assuntos públicos da aldeia. Segundo ele, “tomou-se esta medida para que não seja possível especular com as casas."

Não há polícia e as decisões são coletivas

“Temos todas as necessidades cobertas e as pessoas acomodam-se um pouco.” Numa terra onde antes a maior parte dos jornaleiros mal sabia escrever, há hoje um infantário, uma escola básica e uma escola secundária até ao 9º ano. Tanto o infantário como a escola básica têm um serviço de refeitório que custa apenas 15 euros por mês. No entanto, segundo conta Sancho, “a taxa de insucesso escolar é um pouco elevada porque as pessoas vêm que têm casa e trabalho garantidos e muitas não vêm necessidade de se esforçarem nos estudos. Esse é um dos aspetos que temos de melhorar”.

Os pilares fundamentais sobre os quais assenta o modelo económico de Marinaleda são a igualdade e a participação do povo. E estes princípios estendem-se a todas as áreas da vida e também da política. Ali não há polícia e as decisões políticas são tomadas numa assembleia em que todos os habitantes participam. Por outro lado, “há o 'grupo de ação', que trata dos temas urgentes do dia a dia. Não é um grupo de eleitos, são pessoas que querem juntar-se voluntariamente para partilhar tarefas que é necessário fazer pela aldeia”, explica Sancho. Quanto aos impostos, “são muito baixos, são os mais baixos do município”, segundo Sancho. Os orçamentos votam-se em plenários públicos e as pessoas juntam-se em assembleia para aprovarem as despesas que se realizam. Depois, a decisão toma-se bairro a bairro, porque cada um também tem a sua própria assembleia de vizinhos e é aí que se decide em que é que se investe a parcela do dinheiro da autarquia que lhes coube.


Uma versão mais longa deste artigo foi publicada no sítio do Courrier international

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