sábado, 5 de julho de 2014

Por um Porto Alegre, com toda convicção

Largo Vivo: movimento Ocupa Poa é um sintoma de uma carência de harmonia entre os anseios da juventude,
as oportunidades de criação e fruição artística e uma melhor disponibilização do espaço urbano pelo Estado
O Centro de Porto Alegre está decadente. Digo isso com alguma tristeza, na condição de quem conviveu nesta capital por algumas administrações marcantes, e que, entre idas e vindas, ainda acompanha o seu crescimento e anseios que o cercam.

Afirmo também sem ignorar que, da dúzia de capitais brasileiras que conheci, apenas Brasília se salva desse misto de desorganização com exclusão urbana - mas aí não vale, porque a capital nacional é um lugar em que a violenta estratificação social distancia o sonho do arquiteto que a projetou da realidade local.

Mas no caso de Porto Alegre, a despeito da festa que os gringos fizeram por aqui, respaldados na hospitalidade que tiveram, a Região Central foi só reformada providencialmente com pontos de receptividade e alguma decoração estratégica.

Claro que temos boas opções culturais, até invejáveis para outras cidades, diga-se. Poucas capitais tem um espaços tão artisticamente ricos e agradáveis como a Casa de Cultura Mário Quintana e a Usina do Gasômetro. Também não ficamos atrás da maioria em rotas de exposições, museus e, principalmente, salas de cinema de grandes eventos culturais. 

Mas eu me refiro à paisagem visual, a mobilidade urbana e os serviços públicos para a maioria da população - os trabalhadores que ralam, aqueles que sustentam efetivamente a vida comercial e social de quem transita pelo Centro. E incluí-se aí os turistas, obviamente.

No percurso entre o Largo Glênio Peres e o Viaduto da Conceição, só para citar um exemplo que contempla uma parcela ativa e volumosa da população metropolitana, é gritante a poluição visual, os trechos irregulares das calçadas, gente dormindo na rua e banheiros públicos imundos. Nisso se inclui a dificuldade absurda que essas milhares de pessoas têm para se deslocar entre um pólo e outro do Centro.

E embaixo do Viaduto do Conceição, centro nervoso da mobilidade urbana, uma massa expressiva de trabalhadores embarcam e desembarcam, diariamente, entre a capital e outras cidades da RMPA, a situação é ainda mais deprimente. Cotidianamente, essas pessoas penam entre pilares cinzentos, péssima iluminação, infiltrações durante as chuvas e mau cheiro.

Sustento que é um equívoco primário pensar que soluções urgentes para a cidade nessa rota é secundário, por ser um setor marginal; que os turistas que vieram para a Copa nada com isso se importam, que suas rotinas se estendem para outros cantos, pela Cidade Baixa, Rua da Praia e rotas mais “Atraentes”. Essa noção é tão elitista, quanto desprovida de atualidade, no que se refere ao entendimento do que é turismo hoje.

Em primeiro lugar, a premissa de que os recursos para melhorar a cidade devem se focar nas áreas de visibilidades só tem valor se considerarmos que uma cidade deve projetada e focada nos visitantes externos, o que seria enxergar os seus nativos como elementos secundários, ou, apenas relevantes enquanto consumidores. Nada mais estreito e alienado do princípio de qualquer administração pública: o interesse público, leia-se aí, primordialmente, as pessoas que mais transitam, movimentam e vivem no interior de um espaço urbano. 

Em segundo lugar, a rota citada, para quem tem alguma história de vida no centro de Porto Alegre, sabe bem que representa muito em termos de memória social. A Voluntários da Pátria e suas fachadas - bastante abandonadas  as que sobraram; os prédios ainda em pé nesse âmbito e o que os mesmos representam, interessa à toda cidade, porque contam, por si, o que foi Porto Alegre. E muito disso pode contribuir para explicar o que a cidade é hoje. E facilitar a projeção do que para ela se quer. 

Em terceiro lugar, e finalmente, o conceito de turista como uma figura desajeitada e de camisa havaiana já ficou, faz tempo, para lenda. Hoje, turistas são, em sua maioria, pessoas esclarecidas e curiosas, que querem imergir nas estranhas dos lugares que conhecem, para muito além de prédios e paisagens simbólicas, típicas de cidades “petrificadas” – no conceito do filósofo francês Henri-Pierre Jeudy. Ou seja, que homogenizadas e esvaziadas de vida em troca da ostentação patrimonial, de uma certa história. E não há, definitivamente, mais diversidade social do que essa Região do "Baixo Centro" da Capital.

Além do mais, sabe-se bem que, desde que o Planeta Terra passou a balançar em sua capacidade de absorver tantos impactos negativos do crescimento industrial capitalista, conceitos como equilíbrio, harmonia e sustentabilidade inseriram novos olhares sobre os espaços públicos, gerando valores e sensibilidades mais críticos. E nisso estão os viajantes, de fora e de casa. Portanto, sim, Porto Alegre está decadente, ainda que preserve seu charme.

A capital gaúcha, felizmente, ainda desfruta de um imaginário cosmopolita, herança positiva e imbatível da circulação internacional de visitantes durante três fóruns mundiais sociais e, a partir daí, da referência de outras dezenas de eventos seminais para o debate sobre futuro da vida em sociedade. Artistas de rua ainda se multiplicam na Redenção, na Rua da Praia, no Glênio Peres e em outros cantos. Mas há uma carência estrutural de revitalização e humanização do Centro. Vários prefeitos já realizaram ações voltadas para esse fim. Aspectos importantes melhoraram, mas não tiveram continuidade.

O Camelódromo, conectado a um terminal, foi um avanço - apesar do processo um tanto excludente que ocorreu a varredura dos ambulantes do local. O Catamarã é uma bela opção de passeio. O Calçadão da orla do Guaíba também é um patrimônio de beleza local, que liga, interessantemente, essa área cultural com outra comercial e natural. Mas há questões centrais, para as quais não se enxerga soluções estruturais e inclusivas no horizonte. Algumas, lógico, dependem de projetos e levam longo prazo (ainda que precisam começar). Mas outras, dependem bem mais de vontade política e criatividade.

Por exemplo: Porque tanta dificuldade em se estabelecer um trabalho mais permanente, intensivo e publiscizado de conscientização pela limpeza do Centro? O que houve com aquelas programações de atividades culturais que, outrora, a Prefeitura realizava seguidamente no Largo Glênio Peres, propiciando mais pertencimento e vida ao local? Por que os artistas, ambientalistas (notadamente os ciclistas) e estudantes são tão pouco mobilizados pelo Estado na Capital para debater e atuar pela construção de alternativas que ensejem ações efetivamente transformadoras para uma melhor vida para todos? Será que a juventude portoalegrense merece visibilidade apenas quando protesta?

Pode ser que tudo isso seja chorumela minha, um momento de desabafo, um soluço de ilusão. Como já disse antes, muito mudou pela cidade e bastante se diversificaram as opções culturais. Mas justamente este crescimento tem que ser acompanhado de um planejamento urbanístico que considere uma identidade urbanística, uma harmonicidade socioambiental, e sobretudo, uma vida cultural intensa. De dia à noite. Para todos. Daí, sim, poderemos afirmar, com orgulho, que Porto Alegre é a capital de todos os gaúchos, em toda sua plenitude e não só na sofisticação romanceada, ou fabricada para a Copa.


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